Aquela canção
Ela deitou a cabeça em seu travesseiro. Ativou sua playlist,
pronta para dormir. Porém, como de praxe milhares de lembranças, perguntas e
neuras vieram à tona. Uma por uma foram surgindo como se fossem o tutorial das
noites em claro.
1-
O primeiro beijo nele...
2-
Porque você se foi?...
3-
O que ela tem q eu não te dei?...
4-
Porque levaste meu coração
contigo?...
Até que o aleatório da playlist a trouxe novamente pra realidade,
e ficou a ouvir, quando não pode evitar em imitar a música....
"Moço somos programados pra
cair".
Ela se levanta da cama cantando e vai até a janela. A abre e
olha para o céu. Uma Lua Cheia sem estrelas; é o espetáculo daquela noite. A
lua está tão brilhante, tão iluminada, que por um instante ela para de cantar.
É despertada pela próxima
música. A música que estava tocando naquele dia, quando ele partiu.
“ Não querer lidar
com pessoas
É proteção pra você nunca se machucar.
Se esconde e esquece, pois quando a gente perde alguém
Não quer nem pensar em esquecer...”
É proteção pra você nunca se machucar.
Se esconde e esquece, pois quando a gente perde alguém
Não quer nem pensar em esquecer...”
Volta para dentro,
deixando a janela aberta. As luzes do quarto estavam apagadas, apenas o abajur
perto de sua cama permanece aceso. Se senta na beirada da cama e abre a gaveta
do criado mudo, retirando de dentro um diário. Dentro dele existia uma caneta
marcando uma pagina. Ajeita-se no meio da cama sentando com as pernas cruzadas.
Abre o diário na página, e antes de escrever o que sente, escreve um pedaço da
música:
“Não cabe nesse mundo.
A saudade que sinto no coração
Não cabe nesse mundo.
Aonde foi que eu errei?
Voltar.
Decidir o que foi pra mim.
Não te culpo por tudo.
Eu sei. “
A saudade que sinto no coração
Não cabe nesse mundo.
Aonde foi que eu errei?
Voltar.
Decidir o que foi pra mim.
Não te culpo por tudo.
Eu sei. “
Foi essa parte da música que
tocava quando vi seus olhos pela última vez. Fiquei com ela na cabeça por
semanas. Durante o dia, me fazia de forte com um sorriso estampado no rosto.
Mas a noite, era o travesseiro que me consolava. Me desmancha em lágrimas.
Aonde foi que eu errei? Vivia me
perguntando. Depois de dias que fui me dar conta do erro que cometi. Deixei
você se aproximar. Deixei que destruísse o muro que construi. Não te culpo por
tudo. Na verdade, a única culpada fui eu. Acho que o motivo deu estar carente,
junto com a atenção, a dedicação e o carinho que você me dava, me fez imaginar
coisas que não existiam.
Me fez acreditar de novo no amor.
Éramos apenas amigos, você deixou isso bem claro desdo começo. Eu sei que
concordei com isso, porque essa também era minha intenção. Só esqueci de
perguntar para meu coração se ele ia aceitar.
Outro erro meu foi naquele dia na praça, o
beijo que você me deu. Ou será que foi eu que dei, e você por ficar sem graça,
ou não querer me magoar correspondeu?
Enfim, nunca vou saber.
Ah, mais um erro. Esse foi o fatal.
Foi o tiro certeiro, o que me levou de volta para meu mundinho. O quem me levou
de volta a depressão.
Lembro como se fosse hoje, você me ligando todo feliz dizendo que
estava apaixonado. Disfarcei meu constrangimento, brincando com você tirando
sarro, mas por dentro, meu coração gelava. Gritava de dor.
Os dias foram passando, e o assunto das nossas
conversas era ela, sempre ela. Como prometi ser uma boa amiga, ouvia tudo e
sentia você se distanciando. Até que chegou
o dia que eu mais temia.
Me ligou naquela manhã, precisava
me ver. Disse que tudo bem. Marcamos de
nos encontrar no barzinho de frente a faculdade as 18:h00. Te esperei com um
aperto no peito. Sabia que seria a última vez
que iríamos nos ver. E não estava errada.
Você chegou todo radiante com um
sorriso de orelha a orelha. Me disse que iria atrás dela, que a passagem já
estava comprada, e que antes de ir embora, queria se despedir da sua “ melhor
amiga”. Prometeu me ligar assim que chegasse. Mas essa ligação nunca foi feita.
De você nunca mais soube.
A única lembrança que tenho, é
aquela cena de um barzinho com a música Saudade do Supercombo tocando, você me
olhando com um brilho no olhar. O olhar de uma pessoa apaixonada. Pena que essa
paixão não era pra mim. Se despedindo para sempre.
Escrevo tudo isso aqui nesse
diário, com a esperança de que você leia um dia. Porque essa vai ser a última
lembrança que vai ter de mim, depois do que irei fazer. Comprei ele,
especialmente para contar tudo o que passei depois da sua partida.
Eu realmente me apaixonei. Achei
que essa história de morrer por amor era mentira. Mas como em todas as outras
vezes eu sempre me engano...
Pelo menos, a Lua está bonita...
Obs: Não se culpe, por favor. Eu
que fui fraca, acreditei de novo no amor. O vilão dessa história é ele ‘
***
Ela fecha o diário. Se
levanta, vai até o espelho e se olha uma
última vez. Pega seu celular e conecta o fone no radio. Escolhe uma música e
aumenta. Sua música favorita, a que ela escolheu para interpretar.
Vai até a varanda e olha para a
rua para ver se não tem ninguém passando ou algum vizinho observando. Tudo
deserto. A única espectadora é a Lua. Sobe na murada e tenta se equilibrar.
Está vestida com uma camisola branca de alça. Sua pele branquinha faz um
contraste com seus cabelos negros que nem a noite. Sem olhar para baixo, ela da
um suspiro fechando os olhos.
E lá dentro, toca Amianto:
“Moça, sai da sacada
Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o que que a vida aprontou dessa vez “
Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o que que a vida aprontou dessa vez “
( Aninha e Lisa)

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