E quem olha pra gente diz: Vocês não tem nada a ver! E não temos mesmo. Não fomos criados na mesma rua, não frequentamos o mesmo colégio. Jamais soube de onde vieram os tombos que te deixaram cicatrizes, não te assisti recitando nada na escola. Não vi você dançando no dia das mães, ou quadrilha em festa junina. Nunca imaginei como era a sua casa, onde é que ficava a cozinha, se gostava ou não de tomar café pela manhã. Quantas bonecas tinham em seu quarto. Não te assisti no balé. Nunca soube se chorou no seu baile de debutantes. Não tem meu nome escrito em caderno algum. Corações coloridos feitos de canetinhas na capa? Esquece! Isso não faz parte de nada no nosso passado. Eu realmente não sei se chegou a usar aquelas meias listadas como sempre imaginei usar. Como era o seu boletim escolar e se sofreu pra entender, razão, proporção, logaritmo, equação, números racionais, frações. Não assisti a seu primeiro beijo, e nem queria ter assistido. Não te paguei pipoca no cinema nem nunca vi um filme à seu lado. Nunca soube se usa algo pra dormir, se ronca ou não. Se é fã de AC/DC e Aerosmith desde criança, ou se foi a juventude que te fez ouvir acordes das guitarras e a voz incomparável de Steven Tyler. É, realmente não temos nada a ver, e nem é por não conhecer você a mais tempo, é por tudo que somos e o mundo que abraçamos totalmente diferentes. Somos completamente o oposto um do outro. Mas onde é que está escrito mesmo que é preciso ser igual pra amar? Onde é que é que assina um termo dizendo que se não for iguais os gostos e a vida, não se pode sentir amor? O amor não é caixa de cereal onde vem escrito tantos por cento de proteína, tantos por cento de vitaminas, contém glútens, a vida não é assim. Nada vem com indicação do que é certo ou errado. O que realmente me preocupo é, se te faço bem ou não? Se consigo fazer com que seu mundo melhore, ou não? Não ligo para o que os outros pensam, eu ligo para o que meu coração pensa, para o que você pensa sobre o meu coração.

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